quarta-feira, 12 de maio de 2010

Preconceitos

Os pré-conceitos sofrem um grave preconceito hoje em dia. A eles, pobres diabos, não lhes é dado sequer o reconhecimento de que constituem uma categoria, o que é bem pouco. O que já seria muito é pensar que sejam, talvez, os mais puros dos conceitos; são, em uma palavra, o próprio conceito em si. O tratamento desrespeitoso e injusto é flagrante: cotidianamente, sem maior exame, são desconsiderados em sua função e em sua natureza.

A função do preconceito é a de mostrar, a distância, aquilo que ainda não conhecemos de perto: neste sentido, são um vir-a-ser-conceito. Sua natureza é a de que, em termos das ideias, são de fato as mais puras, porque as mais diretamente derivadas do movimento do real, as mais sensíveis das ideias. Portanto, as menos eivadas de ideologia. E, sendo a ideologia, no mais das vezes, não aquilo que revela a dinâmica do mundo, mas aquilo que a esconde, daqui vem que isto que vulgarmente se chama preconceito tem mais partes de conhecimento que ignorância; e quantas partes tiver de ignorância, tanto melhor o preconceito, para o cultivo e polimento no campo da filosofia.

Apresento, pois, sem culpa, meus preconceitos: 1. Desconfio que a briguinha entre anarquistas e marxistas não tem razão de ser. 2. Que ambos leram em Rousseau a determinação das superestruturas pelas estruturas, mas os últimos centraram fogo no elemento econômico da realidade, ao passo que os primeiros atacaram a política – quando deviam, talvez, e não sei como, ter feito tudo isso concomitantemente e em conjunto. 3. Que a comunicação é um instrumento de trabalho, o mais coletivo de todos e, por isso, muitíssimo mal dominado pela humanidade, imperícia resultante também de uma natureza singularmente dialética: é ferramenta velha e, simultaneamente, nova; é ferramenta usada por mortos e vivos; é ferramenta de alcance multiescalar (da subjetividade para a objetividade, de um tempo e um lugar para muitos tempos e lugares, de um indivíduo para a humanidade); é ferramenta forjada em dois eixos, um abstrato – o pensamento – e um concreto – que terá tanto mais contornos (ou formas) quanto mais contornos ou formas tiver a atividade humana, embora pese sempre o privilégio do som e da representação do som. 4. Que devemos reler Sócrates, à luz de nosso tempo.

Tudo a se confirmar. A natureza dos pré-conceitos é o devir.