Começou surpreendente a Semana de ciências sociais 2010. No auditório, na palestra das 20h, falaram o argentino Christian Castillo e o brasileiro José H. Organista - este último, em dado momento, foi chamado por Lívia Cotrim de "Evangelista", num ato falho. O que não combinou, de jeito nenhum. Com uma retórica como a que tem, Organista não teria levado o evangelho sequer à ilha de Chipre. Quero dizer com isso que a primeira noite, com o tema: "América Latina: independência e subordinação", foi horrível.
Organista tinha a incrível capacidade de dizer o óbvio, chover no molhado, embaralhar as palavras, truncar a sintaxe, matar a prosódia, a métrica, a entonação, o sentido, a sequência e as ideias – falou o quanto pôde e terminou por não dizer nada. Seu colega, Castillo, por sua vez, passou metade do tempo lendo informações que trouxe num papel, relatório extenso de todo o processo histórico argentino nos últimos 200 anos – algo que bem poderia ser lido no wikipédia, em melhor português. As respostas que deu arranjar-se-iam em qualquer enciclopédia, ou no Yahoo respostas.
O pior é a percepção de que suas falas rasteiras não se deveram tanto a precauções didáticas sobre o baixo intelecto da plateia, senão que à incapacidade teórica e discursiva de ir a fundo em temas mais complexos, explorar perspectivas originais ou falar uma fala minimamente agradável. Quem não dormiu – ou não estava muito cansado ou tinha em si grande dose de humanidade. O que salvou o argentino, e tornou menos irritante sua apresentação, foi talvez a nossa ignorância sobre seu país, cujos fatos políticos e estatísticos que apresentou logaram algum interesse dos ouvintes – sem contar na sua melhor articulação dos fonemas, sintagmas nominais e verbais, enfim, do discurso. Melhorou na segunda parte, quando parou de ler, e passou a reportar até curiosas frases de Meném, garantindo que queria ver os proletários proprietários, e ainda fez gracejos felizes – tão necessários nesta triste noite.
De aproveitável, talvez, tenha sido sua constatação de que, pelo processo recente por que passou a Argentina, especialmente em 2001, quando o povo depôs sucessivos presidentes, criou-se uma cultura: a de que é preciso lutar para conquistar. Ou: "quem não chora, não mama!" Esta cultura segue viva tanto nas fábricas ocupadas, como a Zanón, quanto nas greves dos estudantes secundaristas, agora. Este histórico de ação direta popular teve consequências culturais, para eles. Para nós, que temos outro histórico, não há sequer a mais mínima noção de cidadania.
Na Fafil isto nota-se pouco, mas em prédios como Faeco e Faeng, torna-se visível a incapacidade dos alunos ali estudantes de lutar por seus direitos, intervir politicamente nos rumos municipais, para ficarmos no mais baixo dos níveis. Não lhes falta uma consciência de classe: falta a consciência de que vivem numa sociedade, e as mais elementares regras da política. E ainda nos enganamos, em nosso D.A., querendo enfrentar a reitoria acompanhando companheiros que não têm nem a cultura nem a vontade de enfrentar ninguém. Pior: queremos repetir 2007 e derrubar uma reitoria novamente ineficaz, sem porém perceber que em 2007 acumularam-se forças de anos anteriores, e tanto alunos como boa parte dos professores queriam a mesma coisa. Hoje, praticamente professor nenhuma quer a saída da atual reitoria.
Agora, resta saber se esta cultura da desmobilização, que nos cerca, deriva do conservadorismo deste Brasil de agora ou da incompetência discursiva dos nossos dirigentes. Não sem razão, já vimos muitas assembleias que dão sono.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
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