segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A tal da prática

Acabou a Semana de Ciências Sociais 2010 na FSA. Quem tem sua atividade ligada a alguma das áreas de Humanas ou participa ativamente desse tipo de atividade sabe como é difícil montar eventos desse tipo. Não só no que diz respeito à organização, me refiro mais a preocupação de ter ou não público, afinal convenhamos, se não tem bunda lelê ou empreendedorismo pra que serve isso tudo? Entender o mundo? Transformação?

Atividades como a Semana, uma palestra aqui ou ali, ou mesmo a manutenção de um curso de humanas têm sido “nadar contra a maré”, ir contra o fluxo normal e majoritário. Tínhamos noção disso quando, em um grupo de alunos, resolvemos abraçar a idéia da semana e nadar contra a corrente com força até o fim. Por quê? Porque a Semana é importante para a manutenção do curso e o curso é importante não só no que tange o ensino da região, mas por se inclinar, contra a maré, ao entendimento do mundo.

No decorrer desse processo, me lembrei de um tema que me incomoda e ainda tem que ser objeto de muito estudo e reflexão: a tal da prática. Me recordei de contestações a respeito de pessoas, marxistas para ser mais exato, que seriam apenas teóricos, nunca entravam para o campo da prática, isso me deixou meio confuso, afinal, quais são os limites entre o teórico e a prática? O próprio trabalho teórico não seria uma prática de grande importância?

Temos que ser realistas, não sabemos qual a abrangência nem os frutos que podemos obter de uma Semana de Curso, ainda mais tendo ciência que não foram todas as palestras da qualidade que queríamos. Mas tentar levar debates importantes sobre temas que nos atingem de uma forma ou de outra, para o maior número de pessoas possível, não é um ato prático?

O que eu quero dizer é que existe uma diferença prática entre “nadar contra a corrente” e “dar murro em ponta de faca”, para usar de mais um dito popular. Da mesma forma que nadar contra a corrente e sem direção também não se figura como a melhor das alternativas. Analisar o real, o concreto para definir como nadar contra o (re)fluxo em que vivemos é uma tarefa prática, que tem como objetivo a busca de melhores e mais efetivas práticas de transformação.O ato de ignorar a prática teórica, atividades aparentemente menos efetivas e a análise crítica do real não passa de ignorância pseudo-revolucionária disfarçada de prática.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

América Latina

Começou surpreendente a Semana de ciências sociais 2010. No auditório, na palestra das 20h, falaram o argentino Christian Castillo e o brasileiro José H. Organista - este último, em dado momento, foi chamado por Lívia Cotrim de "Evangelista", num ato falho. O que não combinou, de jeito nenhum. Com uma retórica como a que tem, Organista não teria levado o evangelho sequer à ilha de Chipre. Quero dizer com isso que a primeira noite, com o tema: "América Latina: independência e subordinação", foi horrível.

Organista tinha a incrível capacidade de dizer o óbvio, chover no molhado, embaralhar as palavras, truncar a sintaxe, matar a prosódia, a métrica, a entonação, o sentido, a sequência e as ideias – falou o quanto pôde e terminou por não dizer nada. Seu colega, Castillo, por sua vez, passou metade do tempo lendo informações que trouxe num papel, relatório extenso de todo o processo histórico argentino nos últimos 200 anos – algo que bem poderia ser lido no wikipédia, em melhor português. As respostas que deu arranjar-se-iam em qualquer enciclopédia, ou no Yahoo respostas.

O pior é a percepção de que suas falas rasteiras não se deveram tanto a precauções didáticas sobre o baixo intelecto da plateia, senão que à incapacidade teórica e discursiva de ir a fundo em temas mais complexos, explorar perspectivas originais ou falar uma fala minimamente agradável. Quem não dormiu – ou não estava muito cansado ou tinha em si grande dose de humanidade. O que salvou o argentino, e tornou menos irritante sua apresentação, foi talvez a nossa ignorância sobre seu país, cujos fatos políticos e estatísticos que apresentou logaram algum interesse dos ouvintes – sem contar na sua melhor articulação dos fonemas, sintagmas nominais e verbais, enfim, do discurso. Melhorou na segunda parte, quando parou de ler, e passou a reportar até curiosas frases de Meném, garantindo que queria ver os proletários proprietários, e ainda fez gracejos felizes – tão necessários nesta triste noite.

De aproveitável, talvez, tenha sido sua constatação de que, pelo processo recente por que passou a Argentina, especialmente em 2001, quando o povo depôs sucessivos presidentes, criou-se uma cultura: a de que é preciso lutar para conquistar. Ou: "quem não chora, não mama!" Esta cultura segue viva tanto nas fábricas ocupadas, como a Zanón, quanto nas greves dos estudantes secundaristas, agora. Este histórico de ação direta popular teve consequências culturais, para eles. Para nós, que temos outro histórico, não há sequer a mais mínima noção de cidadania.

Na Fafil isto nota-se pouco, mas em prédios como Faeco e Faeng, torna-se visível a incapacidade dos alunos ali estudantes de lutar por seus direitos, intervir politicamente nos rumos municipais, para ficarmos no mais baixo dos níveis. Não lhes falta uma consciência de classe: falta a consciência de que vivem numa sociedade, e as mais elementares regras da política. E ainda nos enganamos, em nosso D.A., querendo enfrentar a reitoria acompanhando companheiros que não têm nem a cultura nem a vontade de enfrentar ninguém. Pior: queremos repetir 2007 e derrubar uma reitoria novamente ineficaz, sem porém perceber que em 2007 acumularam-se forças de anos anteriores, e tanto alunos como boa parte dos professores queriam a mesma coisa. Hoje, praticamente professor nenhuma quer a saída da atual reitoria.

Agora, resta saber se esta cultura da desmobilização, que nos cerca, deriva do conservadorismo deste Brasil de agora ou da incompetência discursiva dos nossos dirigentes. Não sem razão, já vimos muitas assembleias que dão sono.

sábado, 28 de agosto de 2010

Lucidez


Há muito me pergunto como se dá uma exitosa articulação entre teoria revolucionária e prática revolucionária no contexto em que vivemos. Às vezes pode parecer até cômico usar esses termos, tão distantes que são da nossa realidade. De todo modo, o intuito aqui é tocar em outro ponto, e comecei falando sobre a referida articulação porque é geralmente uma das primeiras perguntas que nos fazemos ao tomarmos a posição revolucionária. Pretendo aqui atentar para outra coisa, uma pergunta que teria que vir antes: que teoria e prática revolucionárias são essas? Ou ainda: em que solo ocorre sua germinação? A questão é trasladar o problema para a consideração da inter-determinação entre idéias e realidade, à medida que isso é possível aqui, no que diz respeito à consciência revolucionária.

Levanto essa questão pelo fato de que vivemos num conjunto de relações sociais que foram produto dos homens ao longo da História, mas não produto meu nem seu (ao menos até o momento em que passamos a atuar no mundo). Isso vai ser sempre assim, evidentemente, mas o descaminho fica evidente ao se compreender que essas relações são construídas, poder-se-ia dizer, sobre uma base de areia movediça – sem entrar (por se tratar de uma reflexão blogueira) nos méritos teóricos da questão, são construídas no âmbito da alienação e do estranhamento: a conseqüência necessária das relações capitalistas de produção.

“Areia movediça” parece ser uma boa metáfora. Isso porque, ao contrário do que se passa nos filmes, a areia movediça se comporta como um líquido e nos traga, o que é agravado por nossos movimentos bruscos e desesperados, mas na qual se consegue boiar com relativa facilidade devido à sua densidade. O problema é sair dela. Evoco a imagem para fazer um paralelo com nossas relações sociais atuais, que são pautadas pela troca. Os indivíduos se relacionam entre si, na sociedade moderna, por meio de sua propriedade, como há muito demonstraram, para citar apenas os dois mais importantes, Hegel e Marx (cada um a seu modo e dentro de suas possibilidades históricas), e cada indivíduo se relaciona assim inclusive consigo mesmo (até certo ponto ao menos no que tange ao próprio corpo). Minha vontade se realiza em objetos que são minha propriedade: não tenho aquilo que não quero, e aquilo que tenho encarna o que quero. Isso não diz respeito apenas às coisas, mas também aos outros com quem me relaciono, seja quem for, que freqüentemente se reduzem a meios mais ou menos eficientes para que eu atinja meus fins individuais.

Nesse âmbito, como manter-se são? Buscando basear nossa individualidade por valores humanistas, crendo no racionalismo, como não se deixar levar por relações amiúde tão banais? A questão está em apoiar os pés num solo firme, isto é, além de aprender a lidar com as relações pautadas pela troca – ainda que, assim como qualquer ser humano vivendo desse modo, com mal-estar reluzente (ele sabendo disso ou não) –, pautar nossas relações por alguma outra coisa. Está, então, em saber blindar-se de alguma forma dessa realidade de relações sociais apodrecidas, a fim de que nossa individualidade mesma não apodreça. Mas o risco é cair no outro extremo, a saber: o espaço das infinitas possibilidades de determinação, isto é, fechar-se na própria consciência como forma de fugir da realidade que existe precisamente desse modo (e não de qualquer outro).

Então se coloca a dúvida de como manter efetivo o estatuto de revolucionário ao conviver com relações que nos jogam para baixo o tempo inteiro, desanimam nossos ânimos mais fortes, fazem parecer meras divagações as aspirações de emancipação humana. Não se deixar acostumar (continuar a se comover com as mazelas sofridas pelos seres humanos) é uma das tarefas necessárias (dentre outras), de difícil alcance e, ao mesmo tempo, pungentes. Como transformar essas idéias revolucionárias – as autenticamente revolucionárias, essas que buscam a emancipação humana – em realidade passa antes pela questão de transformá-las, aos que se assumem revolucionários, em pauta para a própria vida. Aí está um grande desafio para qualquer um que se proponha a transformação radical da realidade – sem utopia –, já que essa mesma realidade se opõe com todas as forças a qualquer tentativa nessa direção. Não obstante, cabe ressaltar que essa tarefa está longe de ser impossível, pois somos nós que produzimos o mundo. É necessária lucidez.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Proposta

Não deu pra ir na reunião entre professores e alunos na segunda. Mas, com base na de ontem, eu fiquei de acordo e continuo ficando com a ideia de que os alunos devem se aliar com os professores e propor o tal "equilíbrio das mensalidades", baixando fafil e, se preciso aumentando, faeco e faeng. Mas é um "aliar-se" pontualmente. Pelo seguinte:
 
1. O contexto mais geral é de competição feroz entre os cursos de humanas em geral, letras, história, geografia, sociais incluso. Na verdade, matemática, química, física também. Há uma crise geral das licenciaturas, porque há, ou existe a percepção de que há, melhores opções de trabalho, não só em condições de trabalho (e isso é real: a profissão professor é uma das mais arriscadas e perigosas hj), como em termos de retorno financeiro (aqui pode ser só a percepção, mas na realidade uma parte do salário vem sendo destinada a um gasto enorme de manutenção da saúde do professor, principalmente mental); logo, das três unidades, a Fafil é a mais agredida pelo mercado, cujas faculdades baratas praticam preços muito abaixo (não importa se oferecendo um curso ruim, o fato é que atrai aluno), o que faz a fafil perder alunos a cada ano e ameaça seriamente fechamento de cursos.

2. Embora haja trabalhadores lá do outro lado, e realmente os há, há também uma razoável quantidade de inimigos da classe trabalhadora, na figura de administradores de empresa, candidatos a microempresários etc - o que, no final das contas, e combinado com o fato de que seus valores de mensalidade estão abaixo do mercado (e não há nenhum curso ameaçado como os nossos), em termos gerais resulta que não haverá mobilização por parte deles para reduzir mensalidades. Logo: ou a Fafil se movimenta para salvar "seus cursos", ou carregará nas costas toda a classe estudantil e se afundará na lama com uma bandeira de redução geral das mensalidades que não será erguida pelas outras unidades.

3. A situação ridícula a que chegamos se deve a uma conjuntura mercadológica ruim para os nossos cursos somada a uma política perversa da reitoria de Oduvaldo Cacalano, constrangidamente apoiado por uma parcela de professores da Fafil (incluso nossas sociais) que ainda não percebeu a necessidade de outra luta, como a de 2007, já que outra vez há inchaço da máquina administrativa com cargos comissionados atrelados à estrutura montada em torno de Cacalano-Morgado-Edna Mara dos Santos, aumento intensivo de mensalidades ano após ano, cobrança intolerante e suicida de mensalidades - que faz parecer que a fsa tenta a todo custo dificultar o pagamento, em vez de facilitá-lo.

Ora, os alunos da Fafil não federalizam sozinhos a fsa. Os alunos da Fafil não derrubam sozinhos a reitoria. Os alunos da Fafil não reduzirão suas mensalidades sozinhos. Os alunos da Fafil não têm sequer a capacidade de se mobilizar a si próprios sozinhos (falta-lhes moral ou alguma coisa parecida com a "hegemonia" de Gramsci, que não foi construída na Fafil por acúmulos históricos de erros, especialmente assembleias de 5 horas onde correntes discutem entre si o sexo dos anjos - nem nós mesmos acreditamos em nós). De resto, para fazer qualquer coisa, precisaremos sempre de alianças, preferencialmente com alunos de outras unidades - o que neste momento vejo como improvável. Se a coisa não está boa pra eles da Faeco ou Faeng, com certeza não está tão desesperadora quanto a nossa. Não estamos falando só de um grupo de alunos que, inadimplentes, não poderão estudar; falamos de cursos, que estão se findando, que mutilados anualmente e ensaguentados vão dando os últimos suspiros.

Agora,  neste momento, o apoio dos professores para esta mobilização não é mau, especialmente porque se envolveram professores da Fafil, não de só de Sociais ou Geografia, por exemplo. Insisto: agora sozinhos não somos capazes de mobilizar estudantes da Fafil. Agora mobilizaremos meia dúzia, de cursos conhecidos. Trata-se, a todo custo, de fazer uma aliança dos professores neste momento, pagando o alto custo de ir contra nossos colegas estudantes, trabalhadores, de Faeco e Faeng. Trata-se de, agora, segurar uma bandeira escrito: "Abaixo as mensalidades da Fafil; aumento pra Faeco e Faeng".

Isto vale apenas para "agora".

Em momento seguintes, com os alunos da Fafil já mobilizados, é que esta aliança com os professores pode ser posta em xeque. Pelos seus próprios limites, os professores, especialmente os do nosso curso, não conseguem desvincular-se das origens da gestão Cacalano; não a confrontam. Com esta sinalização de aliança com alunos para ir ao Condir, eles acenam timidamente com um leve protesto. Já é alguma coisa. Uma vez mobilizados os alunos, podemos definir outra política. Pode acontecer, neste cenário futuro, que, sentindo-se agredidos, alunos da Faeco e Faeng também se mobilizem em torno do assunto (o que já seria bom, mesmo que se mobilizassem contra nós, da Fafil). Porque aí teriam sido criadas condições para uma aliança de estudantes contra o inimigo real, a reitoria. Seria facílimo fazer uma aliança de estudantes neste segundo momento. Com certeza, arrastaríamos conosco também alguns professores. Agora, estaríamos, porém, no comando.

Não vejo como pode agora o DA da Fafil querer aliança com outras unidades, que ainda não foi construída, se nem mesmo pode garantir que mobilizará os alunos de sua própria unidade! Nem há motivo forte para os alunos destas outras unidades se mobilizarem, como já foi dito. Em suma, não é hora de os alunos conduzirem a mobilização em torno das mensalidades; os professores saberão melhor que nós fazer isso, "agora". Mais tarde, saberemos o que fazer. Trata-se de se acovardar agora na retaguarda, para garantir alguma valentia na vanguarda amanhã.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Internacional



Em homenagem ao Internacional, campeão da Libertadores ontem.

Afinal, um time de operários, de vermelho, que se chama Internacional... Essa é a história que eu conto. =]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Socios a la Fuerza - Este País es un chiste

Originada do alemão Witz, que significa “gracejo”, a palavra chiste é encontrada na obra de Freud, pai da psicanálise, que define o chiste como uma espécie de válvula de escape de nosso inconsciente, que o utiliza para dizer, em tom de brincadeira, aquilo que verdadeiramente pensa.


http://www.youtube.com/watch?v=iLLtt2PVlGI&NR=1

sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago

O que faz um homem se tornar um ser humano grandioso?
Pergunto, pois foi um grande ser humano que faleceu ontem e para quem dedico essa homenagem.

Ainda ontem, pela noite, R. Paiva sugeriu que prestássemos algum tipo de homenagem a José Saramago, vou utilizar aqui de suas palavras:
“Pensei em fazer uma oração, mas não faria sentido. Pensei em fazer um minuto de silêncio, mas ele passou a vida falando.”

Aqui poderia ser o momento de desejar que Saramago estivesse em um bom lugar depois de sua despedida dessa vida. Mas não farei isso. Principalmente porque, obviamente, ele não foi para o céu cristão. Saramago foi um grande homem, foi Nobel de Literatura, foi comunista-libertário, segundo ele próprio, mas sua importância está em ser o que esquecemos diariamente que é nosso dever, está em ser humano. Ele esteve nas lutas de seu tempo e a frente de seu tempo, tornou seu pensamento mais que um Nobel, tornou seu pensamento um pensamento genérico, da humanidade e ao fazer isso se tornou um ser humano grandioso eternizado onde sempre esteve e, aparentemente, sempre quis estar: na vida dos homens.

Por tudo isso, Saramago merece mais. Saramago exige mais. O melhor que podemos fazer aqui é ler um texto do próprio autor e nos esforçar o máximo para entendê-lo. Para tanto deixo aqui dois links; o Blog Cadernos de Saramago e um vídeo bastante emocionante:

Blog

Vídeo

E para aproveitar esse momento em que o mundo vira seus olhos para o continente africano, fica um texto de Saramago.

África
Por José Saramago

Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano. O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros “descobridores” europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico. Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno. Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer. Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito. É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos. Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: “Não sabia”, mas é inaceitável que digamos: “Prefiro não saber”. O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim. O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: “Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?”. Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?

Disponível em: http://caderno.josesaramago.org/2009/08/11/africa/