sábado, 28 de agosto de 2010

Lucidez


Há muito me pergunto como se dá uma exitosa articulação entre teoria revolucionária e prática revolucionária no contexto em que vivemos. Às vezes pode parecer até cômico usar esses termos, tão distantes que são da nossa realidade. De todo modo, o intuito aqui é tocar em outro ponto, e comecei falando sobre a referida articulação porque é geralmente uma das primeiras perguntas que nos fazemos ao tomarmos a posição revolucionária. Pretendo aqui atentar para outra coisa, uma pergunta que teria que vir antes: que teoria e prática revolucionárias são essas? Ou ainda: em que solo ocorre sua germinação? A questão é trasladar o problema para a consideração da inter-determinação entre idéias e realidade, à medida que isso é possível aqui, no que diz respeito à consciência revolucionária.

Levanto essa questão pelo fato de que vivemos num conjunto de relações sociais que foram produto dos homens ao longo da História, mas não produto meu nem seu (ao menos até o momento em que passamos a atuar no mundo). Isso vai ser sempre assim, evidentemente, mas o descaminho fica evidente ao se compreender que essas relações são construídas, poder-se-ia dizer, sobre uma base de areia movediça – sem entrar (por se tratar de uma reflexão blogueira) nos méritos teóricos da questão, são construídas no âmbito da alienação e do estranhamento: a conseqüência necessária das relações capitalistas de produção.

“Areia movediça” parece ser uma boa metáfora. Isso porque, ao contrário do que se passa nos filmes, a areia movediça se comporta como um líquido e nos traga, o que é agravado por nossos movimentos bruscos e desesperados, mas na qual se consegue boiar com relativa facilidade devido à sua densidade. O problema é sair dela. Evoco a imagem para fazer um paralelo com nossas relações sociais atuais, que são pautadas pela troca. Os indivíduos se relacionam entre si, na sociedade moderna, por meio de sua propriedade, como há muito demonstraram, para citar apenas os dois mais importantes, Hegel e Marx (cada um a seu modo e dentro de suas possibilidades históricas), e cada indivíduo se relaciona assim inclusive consigo mesmo (até certo ponto ao menos no que tange ao próprio corpo). Minha vontade se realiza em objetos que são minha propriedade: não tenho aquilo que não quero, e aquilo que tenho encarna o que quero. Isso não diz respeito apenas às coisas, mas também aos outros com quem me relaciono, seja quem for, que freqüentemente se reduzem a meios mais ou menos eficientes para que eu atinja meus fins individuais.

Nesse âmbito, como manter-se são? Buscando basear nossa individualidade por valores humanistas, crendo no racionalismo, como não se deixar levar por relações amiúde tão banais? A questão está em apoiar os pés num solo firme, isto é, além de aprender a lidar com as relações pautadas pela troca – ainda que, assim como qualquer ser humano vivendo desse modo, com mal-estar reluzente (ele sabendo disso ou não) –, pautar nossas relações por alguma outra coisa. Está, então, em saber blindar-se de alguma forma dessa realidade de relações sociais apodrecidas, a fim de que nossa individualidade mesma não apodreça. Mas o risco é cair no outro extremo, a saber: o espaço das infinitas possibilidades de determinação, isto é, fechar-se na própria consciência como forma de fugir da realidade que existe precisamente desse modo (e não de qualquer outro).

Então se coloca a dúvida de como manter efetivo o estatuto de revolucionário ao conviver com relações que nos jogam para baixo o tempo inteiro, desanimam nossos ânimos mais fortes, fazem parecer meras divagações as aspirações de emancipação humana. Não se deixar acostumar (continuar a se comover com as mazelas sofridas pelos seres humanos) é uma das tarefas necessárias (dentre outras), de difícil alcance e, ao mesmo tempo, pungentes. Como transformar essas idéias revolucionárias – as autenticamente revolucionárias, essas que buscam a emancipação humana – em realidade passa antes pela questão de transformá-las, aos que se assumem revolucionários, em pauta para a própria vida. Aí está um grande desafio para qualquer um que se proponha a transformação radical da realidade – sem utopia –, já que essa mesma realidade se opõe com todas as forças a qualquer tentativa nessa direção. Não obstante, cabe ressaltar que essa tarefa está longe de ser impossível, pois somos nós que produzimos o mundo. É necessária lucidez.

Um comentário:

  1. Realmente, o problema é desconcertante. Não só uma "mera reflexão blogueira" mas, quem sabe, nenhuma reflexão seja capaz de exaurir o problema.

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